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Entrevista - Adriano Moreira

Lições de mudança
Intelectual conceituado, Adriano Moreira defende que é urgente recuperar a confiança na classe política e que essa exigência tem de partir da sociedade civil. O antigo ministro de Salazar afirma que não tem existido “falta de liberdade” para implementar reformas, colocando o ónus da resistência à mudança na população. Estas e outras lições são dadas por um dos fundadores do CDS, apontado como um potencial candidato alternativo à direita nas próximas presidenciais.

O nome “Adriano Moreira” não encaixa sob um único chapéu: político, advogado, jurisconsulto, politólogo, sociólogo, professor. Sente-se realizado nesta sua “deriva” para as ciências sociais?
O que chama de “deriva para as ciências sociais” foi consequência da primeira visita que fiz aos nossos territórios de África, na década de 50, para organizar o projecto de reforma do sistema prisional ali em vigor. A distância que verifiquei, em vários domínios, entre a lei e os factos, inspirou-me a urgência de transformar a Escola Superior Colonial, escola de quadros, numa instituição universitária de ciências sociais. Por ali estive até ao limite legal do exercício.
A Escola Superior Colonial assumiu depois o nome de Instituto Superior das Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), mas essa ligação não se rompeu, pois continua ligado a este instituto, como professor emérito da Universidade Técnica de Lisboa, correcto?
Julgo que é útil para as instituições que as pessoas se mantenham dispostas a dar a cooperação que lhes seja ainda solicitada, depois de retirados por força da lei, mas não é útil pretenderem manter uma presença que pode embaraçar as iniciativas jovens para a mudança. É assim que procuro conduzir as coisas, e penso que as novas gerações estão a mostrar a maturidade e inovação esperadas, numa época em que a competitividade é esdrúxula, e os resultados são frequentemente menos compensadores. Incluindo o mercado de trabalho.
Foram as suas críticas no âmbito académico que levaram António de Oliveira Salazar a convidá-lo para ingressar no Governo. Na altura, tinha experiência de observação, mas não de governação. Que lição tirou dessa experiência de governação?
As razões invocadas levaram-me efectivamente ao Governo, mas só aceitei ser titular da pasta do Ultramar com a condição de que as reformas que entendia que era urgente implementar fossem aceites. Esse compromisso foi cumprido até à data em que o Presidente do Conselho concluiu que as reacções dos interesses atingidos pelas reformas abalavam a segurança do seu Governo. Expôs-me a suas preocupações e convidou-me a acompanhar uma mudança da política. Preferi dizer-lhe que acabava de mudar de ministro. Foi um ponto final, mas a experiência não inovou os meus conhecimentos sobre a marcha habitual do processo político.
Fazendo um paralelismo entre passado e presente, admite que seria útil que os portugueses tivessem uma “lição de história” sobre como a liberdade de fazer reformas depende dos apoios existentes?
Em última análise, a acção de um governante baseia- se na confiança nele depositada, seja por quem o escolhe para determinado cargo, seja por quem o elege. Trata-se de reconhecer que o valor da confiança é a base fundamental da legitimidade de exercício do poder político e, por vezes, tal como está a verificar-se actualmente, esse valor é afectado e a crise agrava-se.
Isso explica que reformas na Justiça, na Educação, na Saúde e na Administração Pública sejam apontadas como prioritárias por opinion makers e, Governo após Governo, as alterações nessas áreas mais pareçam uma operação de cosmética?
Não explica as reformas ou a ausência delas, mas explica a falta de confiança dos cidadãos nos seus políticos.

 
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