Pensar a história
A 5 de Outubro comemora-se o primeiro Centenário da instauração da República em Portugal. Na companhia do historiador Lourenço Pereira Coutinho, fazemos uma viagem no tempo para perceber melhor o que celebramos e que motivos devem ou não ser festejados.
A comemoração do Centenário da República está longe de ser um tema consensual. A prova disso é que basta navegar na Internet para nos darmos conta de que há dois sites que reclamam o mesmo nome (Centenário da República), alojando- -se em diferentes domínios. O sítio oficial desta data marcante é o www.centenariodarepublica.pt mas, se em vez de “pt” colocarmos “org”, acedemos a um website de “um grupo de cidadãos independentes que, tendo em vista as próximas celebrações dos 100 anos sobre a revolução republicana de 5 de Outubro, se reúne para uma abordagem histórica séria ao tema, em contraponto às comemorações oficiais e a 100 anos de propaganda e mistificação”. Por esta rápida apresentação, depreendemos que não é pacífico o motivo da comemoração que este ano se assinala. Portanto, a ELITE procurou uma análise desprovida de artifícios. Para tal, marcámos encontro com Lourenço Pereira Coutinho, licenciado em História e autor de ensaios e romances históricos, o último deles ficcionado – o Cinco de
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Outubro. E começámos por lhe perguntar se há ou não motivos para festejar 100 anos de república. “Eu realmente não sei como é que se pode estar comemorar um século de república. Que se celebre a III República – que mostrou a democracia, uma visão europeia e trouxe alguma estabilidade – percebo, mas acho que não faz sentido comemorar a I República, que foi um período de excessos e de intolerância”, defende Pereira Coutinho. No entender deste especialista, em 1910 “o país não estava preparado para a república, nem a queria – quem a queria era uma fracção radical lisboeta”.
O antes
Na obra Cinco de Outubro, “para um melhor enquadramento dos factos e dos personagens apresentados ao longo deste romance”, o autor optou por fazer uma nota histórica introdutória. Aí explica como a monarquia liberal estava em crise. “O rotativismo, ou alternância no poder de dois partidos de programa e força semelhantes, sistema que fora a base da estabilidade do regime desde a Regeneração (1851), deixara de funcionar a partir de 1906.” Com cinco forças políticas, a “instabilidade tornou-se constante”, antevendo uma mudança. Desde então, diz-nos Lourenço Pereira Coutinho, “o Partido Republicano começou a aproveitar-se desta situação e a fazer grande uso da propaganda para crescer”. Na altura, reinava D. Carlos, “talvez o rei com maior prestígio internacional, pelas viagens que fez”. Ora o monarca permitiu ao líder dos regeneradores liberais, João Franco, que encerrasse o Parlamento, deixando- o governar em ditadura. “Nesse período, o termo tinha uma conotação diferente da actual, significando o encerramento das cortes sem marcação de eleições.” Porém, sem grande base de sustentação, o regime “era tolerante e a liberdade de imprensa dava azo a que os republicanos pudessem, inclusivamente, apelar ao regicídio”. Tal acabou mesmo por se verificar a 1 de Fevereiro de 1908, no regresso da família real após uma temporada no Palácio Ducal de Vila Viçosa. No Terreiro do Paço esperava-os uma multidão e, entre eles, um grupo de acção que visava o rei. Resultado: disparos contra a carruagem real vitimaram mortalmente D. Carlos I e o herdeiro D. Luís Filipe. “O assassinato de D. Carlos fez com que se voltasse à situação política de 1906”, nota o historiador, sublinhando que ao subir ao trono D. Manuel II não tinha uma situação confortável. Como escreve, este rei procurou seguir um rumo diferente, pois “estava convencido de que o reinado anterior tinha acabado em tragédia porque o seu pai interviera demasiado na arena política”. A “acalmação” que tanto procurava acabou por se virar contra ele, ao abrir a possibilidade do Parlamento poder fazer e desfazer governos. “Isso deixou o rei refém do Partido Progressista, que era o único com força para formar governo.” Como é óbvio, tal “gerou uma enorme instabilidade governativa”, sublinha Pereira Coutinho. A situação política degradou-se, tendo-se sucedido sete governos em cerca de 24 meses. Os partidos monárquicos voltaram às questiúnculas e divisões, fragmentando-se, enquanto o Partido Republicano continuava a ganhar terreno. “Houve um congresso em Setúbal, onde os republicanos elegeram um directório controlado pela Carbonária, que aprovou a via revolucionária para chegar à República.” A partir daí foi constituída uma comissão para angariar apoios e preparar a revolução, baptizada de Comissão Executiva de Lisboa. Dela faziam parte “pesos pesados do partido como Afonso Costa, António José de Almeida, Cândido dos Reis e João Chagas”.