O Senhor PS
O presidente do PS mostra-se um brilhante “advogado” de José Sócrates, afirma que a corrupção não aumentou em Portugal e defende políticos bem pagos. O ex-ministro da Coordenação Interterritorial, da Comunicação Social, da Justiça, entre outros cargos de relevo, entende ainda que é preciso que a política se sobreponha aos interesses económicos e diz-se preocupado com o rumo que o actual modelo económico está a tomar.
No PS, o centro de poder está no secretário- -geral. Se o cargo de presidente do partido é meramente tutelar, porque fez questão de apenas ser presidente se fosse eleito e não nomeado?
Nunca quis ser presidente a não ser que fosse eleito. Quando foi líder partidário, o Jorge Sampaio pressionou-me para ser presidente do partido, mas eu disse-lhe logo que só o seria na condição de ser eleito. Nessa altura não aceitei, porque entendo que a democracia exige que os cargos sejam legitimados pelo voto.
Como reage às críticas da própria esquerda que acusam este Governo de alinhar pelo centro- direita?
O PS sempre foi de esquerda e sempre será. Antes e depois do 25 de Abril. Não creio que o PS tenha governado, neste último mandato, alinhado pelo centro-direita, pelo centro-esquerda sim.
Mas admite a acusação de que o PS está mais à direita do que o normal?
É normal que partidos de esquerda achem que estamos à direita e vice-versa. Acontece que, fazendo parte da Europa e estando esta alinhada com o centro, não nos podemos desalinhar dessa realidade. Quando se criou o Mercado Comum, também se fez uma espécie de globalização política centrada em Bruxelas. O espaço europeu está unificado, não só do ponto de vista económico, mas também do ponto de vista político. Tenho defendido, inclusivamente em alguns dos meus livros, que foi um erro crasso ter-se feito a globalização económica, sem uma definição política global. A economia ficou a funcionar em roda livre e, quando o forte compete com o fraco sem um controlo político, o fraco é esmagado. Segundo o Banco Mundial, existem 1,3 mil milhões de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. Ainda muito pobres, mas menos, a viver com dois dólares por dia, há 3 mil milhões. Ou seja, há 4,3 mil milhões de pobres. A economia globalizada esmagou os fracos. Este modelo oprime. Transformou-se numa fábrica de pobres e de desempregados.
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O que propõe, em alternativa?
O mais difícil é não fazer nada, porque com este modelo económico vão continuar a verificar-se crises cada vez mais graves. Não ter consciência disto é gravíssimo. De cinco em cinco anos temos tido crises, apesar desta ter sido a mais grave dos últimos 80 anos. Falta uma globalização política que se sobreponha à económica. Considero que a substituição do G8 pelo G20 foi positiva. Mas desde então ficou tudo na mesma. O dinheiro para combater a crise foi entregue ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que, a meu ver, é o grande culpado das crises, pois é ele, o Banco Mundial e a OMC que gerem o modelo económico. Não sou contra o capitalismo nem contra o lucro justo, mas entendo que precisamos de uma nova síntese entre a liberdade e a igualdade. O leste privilegiou a igualdade e matou a liberdad. No ocidente privilegiou-se a liberdade económica, que esmaga a igualdade.
O facto da globalização política não acompanhar a económica decorre do quê?
Decorre do predomínio dos interesses sobre os princípios. Os interesses económicos estão hoje concentrados em pequenos impérios de negócios, que controlam o poder político dos países, nomeadamente nos e a partir dos EUA. Barack Obama está a reagir contra isso, mas acabará por ser vencido, porque não é só a cor da pele que é problema na América.
Na Europa foi possível, tranquilamente, que países se juntassem, e já vamos em 27 Estados-membros. Criámos inclusivamente a moeda única, que é a mais forte do mundo. Isso prova que este modelo não é mau. A Europa mostrou que a globalização política em conjunto com a económica é aquilo de que o mundo precisa. Para isso é preciso que os interesses económicos individuais deixem de se sobrepor ao interesse comum. Até acredito que existam políticos com vontade de fazer a globalização política, o problema é que a economia não deixa, e isso é tão mais preocupante quanto mais abrangente for a nossa perspectiva do futuro. Continuamos a crescer à razão de 80 milhões/ano. A esperança média de vida também é cada vez maior. As mulheres estão a entrar em força no mercado de trabalho, mas a mulher islâmica ainda não entrou. Estes três factores colocam uma grande pressão sobre a procura de emprego, com a agravante de que as novas tecnologias vieram reduzir grandemente a necessidade de trabalho humano. No futuro, quem é que poderá competir com um robot que não falha, não tem férias, licenças, salário, sindicatos? O emprego não tem, assim, uma solução estrutural. A única solução é aquela que eu defendo: uma autoridade política global que defina os sectores em que a máquina não pode substituir o ser humano. Não vejo nenhum líder político colocar estes problemas. Também não percebo porque é que uma Europa a 27, sem inimigos, precisa de ter 27 exércitos! Creio que será inevitável virmos a ter um exército europeu. Os submarinos e os porta-aviões só mostram que os interesses económicos, neste caso os da indústria das armas, se sobrepõem à lógica das soluções. São os grandes negócios a imporem-se, em detrimento do interesse dos cidadãos.