Homem de armas
O ex-ministro da Defesa, general Loureiro dos Santos, fala-nos de como Portugal se deve posicionar na nova ordem internacional, alerta-nos para as falhas na legislação que impedem uma eficaz resposta das forças armadas no caso de um atentado terrorista no país e indica quais as movimentações certas no tabuleiro do poder.
O sexto volume das suas reflexões sobre estratégia só pelo título, As guerras que aí estão e as que nos esperam - se os políticos não mudarem, traduz a ideia de que o futuro será tão mais perigoso, quanto mais erradas forem as decisões políticas, correcto?
Sem dúvida. Estamos a defrontar-nos com uma série de conflitos, mas um deles – que deve estar na recta final – foi claramente travado por vontade de George W. Bush, gerando problemas que agravaram a situação do Ocidente, nomeadamente dos EUA. Enquanto o conflito do Afeganistão foi, de certa forma, imposto aos EUA, porque estes foram atacados no seu território e tiveram que responder, a invasão do Iraque foi desencadeada sob razões que se provou serem falsas e com o intuito de obter proveitos estratégicos que não foram alcançados. Mas isso levou à movimentação de meios e de recursos que colocaram os EUA numa situação complicada.
Foi uma decisão política. Ora, por essa ordem de ideias, não nos resta outra hipótese se não a de sermos cépticos em relação ao futuro, atendendo ao grande descrédito dos portugueses face às elites políticas nacionais?
Normalmente, os portugueses são descrentes em relação ao Governo. Contudo, temos coisas boas e não é de ânimo leve que somos a nação mais antiga da Europa, apesar das nossas fraqueza e descrença. O que precisamos é de políticos com uma noção realista da força do país – por nós próprios não temos qualquer capacidade de provocar importantes mudanças na cena internacional – e que saibam observar com cuidado as grandes linhas de força da evolução das relações internacionais, tirando delas o máximo proveito e procurando sempre fortes protectores marítimos, porque Portugal precisa de uma profundidade estratégica que só ganhou quando foi para o mar. A situação alterou-se em relação ao passado, mas mantém-se um reconhecimento histórico e estratégico por parte dos países onde conseguimos aquela profundidade, desde que saibamos estimular essas relações e voltar a configurar uma nova visão estratégica de interesse comum.
E reconhece aos actuais líderes portugueses essa capacidade?
A alguns sim. O actual ministro dos Negócios Estrangeiros tem uma percepção das linhas das relações internacionais em que reconheço inteligência de actuação estratégica. Acho que não são todos assim, mas Luís Amado assume de facto uma postura e uma visão estratégica que nos concede algum conforto e segurança. E há várias individualidades a projectar internacionalmente o nome de Portugal. Desde logo, o presidente da Comissão Europeia. Em boa verdade, a este nível, Durão Barroso como Presidente da UE tem sido importante para Portugal. Podemos ainda falar de outras personalidades cujos cargos nos conferem, de certo modo, poder no panorama internacional. É o caso de António Guterres, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, e de Jorge Sampaio, Alto Representante da ONU para a Aliança das Civilizações. Todas estas funções traduzem poder.

“Agora, ao contrário do que aconteceu nos últimos 300 anos, até a Índia e o Brasil querem comprar empresas na Europa” |
Pedia-lhe uma avaliação do exercício do poder, mas internamente. O que pensa da forma como o Governo respondeu, e prevê responder, à crise que afectou sobretudo as economias ocidentais?
Entendo que a actuação foi globalmente positiva. Numa fase inicial, este Governo mostrou uma coragem nunca vista em Portugal, com reformas e medidas duras que chegaram inclusivamente à classe militar, por vezes até injustiçada. Face à crise, não digo que não tenham sido cometido erros, como no caso dos bancos, relativamente aos quais não tenho conhecimentos que me permitam pronunciar- me. Contudo, não compreendo por que razão alguns dos grandes investimentos públicos não são adiados. Percebo que sejam estruturantes, mas não deixam de representar enormes montantes que, num momento de crise, poderiam fazer mais sentido com uma outra aplicação. Em relação ao TGV, por exemplo, discordo do projecto tal como ele foi concebido. Primeiro, porque não se justifica uma alta velocidade só para passageiros. Segundo, faria mais sentido alterar o actual sistema ferroviário para a bitola europeia, mas para mercadorias e passageiros, e com uma ligação à Europa pelo eixo de Vilar Formoso e uma ligação à Galiza. Só numa terceira fase é que se pensaria em Madrid.
Esta crise que levanta dúvidas sobre grandes investimentos públicos é também a crise que veio acentuar o declínio do Ocidente?
Esta crise decorre de grandes erros do Ocidente. As despesas astronómicas com as ditas guerras americanas contribuíram e muito para chegarmos a este ponto, em que é a própria crise a acelerar um processo de alteração das relações de poder que começou há 20 anos com a globalização.
Onde é que nos leva essa mudança?
A uma deslocação dos centros de poder. Com a crise e a globalização, cada vez mais os países emergentes reforçam a sua posição. Veja o desenvolvimento da China, da Índia, do Brasil e de alguns países africanos. Nos últimos cinco anos, os países emergentes cresceram muito mais do que os ocidentais. Mesmo a saída da crise é mais “airosa”. Enquanto os países do Ocidente estão a fazer a retoma muito lentamente, a China, por exemplo, já está a crescer 8% ao ano. Com o dinheiro que tem e com as dificuldades que as empresas do Ocidente sentem, está a conseguir efectuar grandes aquisições. Agora, ao contrário do que aconteceu nos últimos 300 anos, até a Índia e o Brasil querem comprar empresas na Europa.