Profeta de tempos difíceis
Ainda que não acredite que as suas críticas consigam mudar o que está mal no país, o ex-ministro das Finanças não pretende suspender os alertas fatalistas que dirige à sociedade portuguesa. Impõe-se a si próprio o dever da verdade e dispara em todas as direcções: economia, educação, justiça e partidos políticos.
Prefere ser chamado de “incómodo” do que ser rotulado de “pessimista”. Isto de dizer sempre o que pensa, acaba por gerar este género de chavões a seu respeito. Não o aborrece?
É-me perfeitamente indiferente, já estou habituado. Sempre que digo coisas incómodas, em vez de ter um interlocutor para discutir o assunto, aparecem logo uns quantos a rotularem-me de pessimista. Mas isso não me impede de continuar a ter um tom crítico sempre que considerar que tal se justifica.
Corrija-me se estiver enganada, mas o trabalho crítico que exerce, os alertas que lança só são possíveis graças, por um lado, à sua formação – fez três cursos – e, por outro, a um contínuo estudo da realidade portuguesa e da realidade internacional.
E investigação também. As matérias que abordo exigem um sustentado nível de conhecimentos para se conseguir formar uma opinião serena. Se tivesse aqui gráficos você percebia rapidamente que basta olhar para uma imagem desse género, que traduza a evolução da economia portuguesa, para termos a perfeita noção de que estamos em queda e a afundar-nos gravemente.
Portanto, quem lhe aponta o dedo ainda não viu esses gráficos…
Pura e simplesmente, não fazem a mínima ideia daquilo de que se está a falar. Quem diz que eu sou um pessimista e um Velho do Restelo é ignorante. Era melhor que essa gente estudasse e debatesse com alguém com conhecimentos e, enquanto não o fizesse, optasse por ficar calada.

“Em Portugal, a Justiça aplica-se numa espécie de lógica de grandeza: um grande ladrão nunca é julgado e um pequeno pilha-galinhas é levado algemado para o tribunal” |
Quando reclama, fá-lo sempre com um sentido de utilidade? É por isso que, surpreendentemente, nunca pediu um livro de reclamações?
Nunca o fiz porque isso não vale a pena num país desorganizado como o nosso, em que as reclamações têm de cumprir um longo caminho burocrático, no fim do qual fica tudo exactamente na mesma. Aliás, basta sairmos à rua aqui em Lisboa, investigarmos um pouco, e descobrimos que há uma enorme quantidade de prédios clandestinos.
Como é que isso é possível?
Porque quem tem a obrigação de fiscalizar não o faz. Repare que em Portugal a Justiça se aplica numa espécie de lógica de grandeza: um grande ladrão nunca é julgado e um pequeno pilha-galinhas, que furtou duas aves no valor de 50 euros, é levado algemado para o tribunal! Nascemos nisto e assim vamos continuar, pois com o sistema de educação que temos estamos muito longe de cultivar uma democracia decente.
Teremos oportunidade de falar sobre esse tópico. Antes disso, gostava que fizesse uma pequena retrospectiva e partilhasse connosco aquilo que já conseguiu mudar com as suas críticas?
Nada, e provavelmente nada mudará. Se tenho uma postura interventiva foi porque estudei muito e com bastante sacrifício – quem diz que o faz sem esforço, não aprende nada. Entendo que, se me foi dada a oportunidade de usufruir de equipamentos escolares, o meu dever é o de devolver à sociedade portuguesa aquilo que ela fez por mim. E sempre que leio ou observo a óbvia decadência de impérios e de civilizações, pergunto-me por que é que ninguém se deu conta disso e não interveio. Não quero pertencer à legião dos que ficam indiferentes. Devemos denunciar sempre.