O homem forte de Sintra
Fervoroso benfiquista, Fernando Sera diz-se dedicado de alma e coração a Sintra. De novo candidato nas próximas autárquicas, não faz promessas eleitorais a não ser a de garantir que, se for reeleito, vai gerir responsavelmente os destinos do concelho. E alerta para os cenários causados pela gripe A.
Comentador desportivo, presidente da câmara de Sintra, jurista. Como é que organiza cada uma destas paixões no seu dia-a-dia?
Continuo a ter várias paixões, mas o meu dia é passado exclusivamente na Câmara Municipal de Sintra. Ainda mantenho o meu escritório, mas a verdade é que a minha secretária está limpa, completamente liberta de papéis. Já a minha paixão benfiquista continua a ser vivida com a mesma intensidade – vejo o Benfica como o via ontem e como o vou ver amanhã –, sendo religiosamente assumida nas noites de segunda-feira. Porém, como é público, nos últimos anos tenho concentrado todo o meu empenho e dedicação ao concelho de Sintra.
No plano do comentário desportivo, o ano até agora fica marcado por duas situações. Uma delas foi que mudou de “casa”, deixou a SIC Notícias para ir para o “Prolongamento” da TVI 24. Já teve tempo para se arrepender desta opção ou para lamentar não o ter feito mais cedo?
Na vida, as pessoas têm de fazer opções sempre com um certo grau de risco associado, pelo que todas as decisões devem ser bem ponderadas e reflectidas. Foi o que fiz e não me arrependo, sublinhando que gosto muito de partilhar aqueles quase 120 minutos de televisão com o doutor Pôncio Monteiro e o doutor Eduardo Barroso, assim como gostei de discutir e de analisar casos do futebol com o doutor Dias Ferreira e o doutor Jaime Guilherme Aguiar. O comentário desportivo é, para mim, um exercício fascinante, sobretudo sabendo, de antemão, que os meus colegas têm exactamente a mesma postura que eu em relação ao clube de que são adeptos. O meu Benfica nunca perde, de vez em quando é que não ganha.
Assumindo a postura que o Benfica nunca perde, como é que lidou com as declarações de João Gabriel, que o acusou de usar o programa não para defender o Benfica, mas sim para defender os seus interesses de promoção pessoal e eleitoral?
Tempo passado. Não quero, nem vou falar sobre esse assunto.
Voltou a ser mandatário da candidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica.
Sou amigo dele há tempo suficiente para ter aceite ser mandatário da sua candidatura e fi-lo de pleno acordo com a minha liberdade de opiniões acerca do Benfica. O Benfica é um clube que cultiva a liberdade e isso agrada-me, porque significa que cada um pode dizer o que pensa sem temores. É essa a realidade que eu defendo e que pratico.
Além de amigo, que elogios lhe merece Luís Filipe Vieira?
Na altura deixei bem claras as razões que me levaram a apoiar de novo o Luís Filipe Vieira. O passado e a memória podem ser excelentes norteadores de decisões e a verdade é que, como benfiquista, recordo-me perfeitamente daquilo que o clube era antes da liderança de Luís Filipe Vieira e sei aquilo que o clube é hoje. Não hesito em reconhecer que a marca Benfica atravessou nos últimos 10 anos um período conturbado, do ponto de vista do reconhecimento, da credibilidade e da capacidade financeira – requisitos indispensáveis para identificar e consolidar um clube. Sob a direcção de Manuel Vilarinho e, depois, de Luís Filipe Vieira, esses constrangimentos foram sanados, conseguindo-se recuperar a imagem e a credibilidade do Benfica e, inclusivamente, erguer um novo estádio. A minha dupla condição de benfiquista e de figura conhecida junto do grande público permitiu que fosse mandatário, o que não interfere com as minhas posições. Sou suficientemente livre para contestar quando assim o entender e sou suficientemente livre e apaixonado para aplaudir quando achar que as opções são as correctas.
É nesta época que o Benfica conquista o título de campeão nacional?
Tenho gostado de ver a equipa e o empenho dos jogadores – foram feitas quatro contratações muito boas – e isso leva-me a acreditar que poderemos ir longe.
Uma vez que já serviu tantas vezes o clube, admite, a médio-longo prazo, candidatar-se à presidência do Benfica?
Sou um sócio com as quotas pagas e com alguma notoriedade.
Isso é um sim ou um não?
Não é um sim nem um não, porque acabaram de haver eleições.
Mas num horizonte a médio-longo prazo, admite fazer a vontade a muitos benfiquistas?
Não sei.
Para encerrar o capítulo do futebol, não tenho como deixar de lhe perguntar o que pensa sobre o processo Apito Dourado?
Devo ter muito cuidado sempre que me refiro a este género de situações, porque o escritório do qual sou associado e fundador é um dos que mais trabalha o Direito Desportivo em Portugal e, mesmo não estando a exercer, conheço bem alguns processos, mas tenho o dever deontológico de não me pronunciar sobre essas matérias. Não conheço este processo em concreto e como jurista e professor de Direito não falo de casos que desconheço. O Apito Dourado tem duas lógicas, uma desportiva e uma de ponderação. Há factos muito graves ocorridos que vieram a público mas, como deve calcular, estive 12 anos no Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol e nunca me pronunciei sobre processos desse tipo. Fundamentalmente, interessa perceber o que é verdade na esfera desportiva, mas que na esfera da decisão judicial não é objecto de ponderação tão crítica como seria no âmbito desportivo. O resultado salta à vista: até agora não se retiraram praticamente nenhumas consequências para o futebol português. Daí as diferenças semânticas entre Apito Dourado e Apito Final. Porém, como defensor que sou do Estado de Direito, não posso sê-lo à segunda, quarta e sexta, hesitar à terça, quinta e sábado e não praticar ao domingo.

A educação e o apoio social continuarão a ser duas das prioridades de Fernando Seara se este vencer as eleições. A contenção do betão, garante, também é para continuar |
Falando agora de Sintra, olhando para a Sintra de agora e recuando oito anos no tempo que diferenças destaca no concelho?
A Sintra de há oito ou de há 18 anos atrás exerce o mesmo fascínio e desperta a mesma paixão a muita gente. Há oito anos tinha, porventura, menos 100 mil pessoas, ainda não tinha assistido à chegada do cidadão brasileiro – que é hoje a principal comunidade de imigrantes – e começava a ver chegar os cidadãos do Leste da Europa, continuando a acolher os guineenses e os cabo-verdianos. Quando comecei a exercer aqui o meu primeiro mandato, existiam seis vias de acesso a Sintra (quatro no IC19 e duas na ligação a Cascais). O IC19 era das vias mais congestionadas da Europa, sendo urgentes alternativas para responder às necessidades de mais de 400 mil habitantes. Agora, existem 16! Temos o alargamento do IC19 e da ligação a Cascais completamente concluídos e, já bastante avançado, o prolongamento do IC16 que vai garantir uma ligação alternativa entre Lisboa e Sintra/Cascais, desviando parte do trânsito que circula nas zonas do IC19 em território do concelho de Sintra. Por outro lado, quando assumi os destinos deste município, o apoio social escolar não tinha a expressão que possui actualmente e que se traduz em cerca de 14 mil refeições diárias, em refeitórios que nunca fecham (nem mesmo nas férias escolares), na distribuição gratuita de manuais escolares a todas as crianças do primeiro ciclo, no transporte escolar (básico e secundário), no apetrechamento informático de dezenas de escolas, na construção de novas escolas e alargamento de outras. Saliento que temos mais de 50 mil alunos no ensino público. Para além das despesas correntes com a educação, que representam 22% do orçamento, só este ano foram investidos 30 milhões de euros na construção e/ou ampliação de equipamentos escolares. Não tenhamos dúvidas, a minha prioridade estratégica continua a ser a educação! Mas também quero salientar o apoio aos idosos do concelho. Além do apoio social prestado, nestes oito anos construímos e apoiámos a construção de vários centros de dia e de alguns centros comunitários, destinados a crianças, jovens e idosos, onde as várias gerações se encontram. Diria que uma enérgica aposta na educação, no apoio social a idosos e população carenciada e um vigoroso condicionamento da aprovação de grandes loteamentos, a par do esforço para avançar com importantes soluções de mobilidade foram os grandes elementos estratégicos que fazem hoje de Sintra não só um concelho apaixonante, mas também um concelho com melhor qualidade de vida e menores clivagens sociais.
Estamos a pouquíssimo tempo das eleições autárquicas. Admitindo a hipótese de vir a não ser eleito, o que é que lamentaria não ter tido oportunidade de fazer por Sintra?
Um dos princípios da política diz que quem se candidata tem que ter a capacidade para sorrir se perder e para ser suficientemente lúcido na euforia da vitória e foi isso que eu fiz quando ganhei as eleições. Em 2005, ao contrário do que diziam as sondagens, ganhei com maioria absoluta e, em 2009, sou candidato com a mesma lógica: ser suficientemente humilde e entender que as decisões do povo são sempre positivas. Quem sabe perder é quem sabe ganhar. As próximas eleições autárquicas vão ter três condicionantes. A primeira é que a discussão política vai ser pluralizada pelas eleições legislativas. A segunda passa pelo facto do escrutínio autárquico só começar a ser realmente importante para as pessoas a partir de 28 de Setembro. Em terceiro lugar, as eleições autárquicas poderão vir a coincidir – e neste momento é essa a grande incerteza – com o primeiro pico da pandemia da gripe A. Teremos dois picos, o primeiro e o mais leve poderá vir a registar- se na altura das autárquicas e o segundo, de acordo com as informações que recolhi junto de técnicos, deverá vir a ocorrer um mês depois, sendo o mais grave e podendo vir a atingir mais de 1 milhão de portugueses. Portanto, nesta fase é muito complicado fazer qualquer antevisão de como irão decorrer as eleições autárquicas, sendo certo que a forma como a gripe A vai evoluir poderá influenciar em muito os resultados das eleições.