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Entrevista - Joaquim de Almeida

O melhor da fita
O actor português radicado nos EUA acredita que é possível revolucionar a indústria do cinema em Portugal. Na calha está um ambicioso projecto para o Algarve e que supera mesmo o investimento no autódromo de Portimão. Joaquim de Almeida fala-nos ainda de como vive a paixão pelo cinema, dos sacrifícios impostos pelo trabalho e da forma como lida com o glamour .

É o nosso único actor com um verdadeiro estofo “internacional”. Para atingir este estatuto teve, com certeza, de tomar opções difíceis. Estou a pensar, por exemplo, em estar afastado da família por causa das filmagens…
Estar afastado da família é uma decisão difícil, mas que tem de ser tomada quando a meta de um actor é a de fazer uma carreira internacional no mundo do cinema. Eu mudei-me para a Califórnia há seis anos e em momento algum me arrependi dessa opção. Pelo contrário, sempre que penso nisso chego à conclusão de que me deveria ter mudado há muito mais tempo. Quando o meu filho tinha apenas dois anos, e como eu queria estar mais perto dele, passava mais tempo em Portugal do que em Nova Iorque e achei, nessa altura, que conseguia perfeitamente conciliar a minha vida pessoal com as minhas aspirações profissionais. Foi um engano. Um actor tem que estar onde está o cinema, caso contrário, as oportunidades passam-lhe ao lado. Dou-lhe um exemplo, recebi um contacto para fazer uma entrevista para um novo filme do Silvester Stallone amanhã nos Estados Unidos da América. Se não estamos no local certo à hora certa, como se costuma dizer, perdem-se grandes oportunidades. Refiro-me sobretudo à área do cinema, a que mais me agrada. Apesar disso, actualmente há muito mais trabalho para a televisão, graças às séries. Ganha-se melhor, mas tenho a sensação de estar a trabalhar “ao metro” e isso não me fascina muito.
Hoje em dia já não considero que o facto de estar no estrangeiro seja um sacrifício, tanto mais que os meus filhos estão perto de mim, à excepção do mais velho com quem passo férias sempre que conseguimos conciliar os estudos dele com o meu trabalho. Mas até ele, possivelmente daqui a dois anos, vai estudar numa universidade americana. Não é apenas uma forma de estarmos mais próximos, é uma garantia de que ele encontra emprego depois de concluir a licenciatura. As escolas americanas gozam de um grande prestígio e abrem as portas do mercado de trabalho em todo o mundo àqueles que as frequentam – o que em Portugal não se verifica.
Os meus filhos foram habituados a viver um pouco como o pai. Eu sou muito presente quando estou em Portugal e nunca passo mais de dois meses sem os ver. Quando venho fico um mês com eles. Trabalho muito na Europa – em 2007, dos seis filmes em que participei quatro foram na Europa – e assim que posso apanho o avião e chego a Portugal num instante. Conheço pessoas que têm um horário das 9h00 às 17h00 e, mesmo assim, não têm tempo para estar com os filhos. Eu, quando estou com eles, estou a tempo inteiro.
Se me perguntar se o caminho que escolhi foi o correcto, respondo- lhe que acredito que sim. Muitos portugueses que vão estudar para os EUA vêm-me pedir conselhos e, daquilo que me apercebo, nenhum deles tem a mesma maneira de fazer as coisas. Portanto… Uma coisa é certa: tive a grande vantagem do Conservatório Nacional ter fechado a seguir ao 25 de Abril. Como não existia outro sítio para estudar cinema em Portugal e o que eu queria mesmo era fazer isso, achei que estava na altura de ir estudar para os EUA. Comecei por fazer teatro até que houve uma senhora que me viu numa peça e adorou a minha interpretação – apesar de eu próprio achar que estava horrível.
Ou seja, não basta só talento e sorte, é preciso encontrar as pessoas certas.
Na minha opinião, os três são factores determinantes para singrar no universo do cinema. Mas acrescento outro, bom senso. Quando se começa, está-se com a garra toda e isso pode levar a algumas precipitações. Trabalhei em restaurantes e em bares nos quais fazia muito dinheiro em gorjetas. Só depois de fazer o terceiro filme é que deixei de trabalhar em restaurantes. Com o dinheiro do primeiro filme comprei um loft, com o do segundo arranjei-o, e só depois do terceiro é que deixei de trabalhar no restaurante. E não tenho qualquer pudor em dizê-lo. Assim como assumo com toda a franqueza que gosto muito de cinema e de toda a parte da rodagem, mas dispensaria todo o élan de glamour. Não suporto. Podia ter tido uma carreira mais brilhante se tivesse tirado a camisa e feito fotografias para as capas de jornais, mas não tenho a menor paciência para sessões fotográficas. E as festas de Hollywood não me dizem rigorosamente nada. São o oposto daquilo que é a realidade de quem se move no mundo do cinema: trabalha-se 17 horas por dia, levantamo-nos às 4 da manhã e às vezes trabalhamos a noite inteira. Isso não tem nada de glamour. As festas é que passam essa imagem de beleza e de requinte, mas depois as pessoas vêem as fotografias nos meios de comunicação e esquecem- -se com facilidade do trabalho que está por trás. No cinema tem-se um guião que não sofre grandes mudanças, mas na televisão o actor faz parte de uma história que não sabe como é que vai acabar, como me aconteceu no 24 Horas. Eu já recusei fazer uma série porque implicava oito meses de trabalho muito intenso, levar páginas para ler em casa e, muitas vezes, mudam-se as coisas no próprio dia.
 
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